A observação pedagógica entre pares, a partilha de experiências e a reflexão crítica constitui um dos pilares centrais da missão do De Par em Par, iniciativa orientada para o desenvolvimento profissional contínuo dos docentes do Ensino Superior e inserida no projeto INOV-NORTE – Centro de Excelência para Inovação Pedagógica.

Ao promover o contacto entre docentes de diferentes áreas científicas, cursos e instituições, o “De Par em Par” procura criar espaços seguros de diálogo pedagógico, assentes na confiança, na não avaliação e na aprendizagem entre pares. Por meio da abertura das salas de aula e da observação mútua, a iniciativa contribui para a consolidação de práticas pedagógicas inovadoras, centradas no envolvimento ativo dos estudantes e na melhoria contínua dos processos de ensino e aprendizagem.
Abrir a porta da sala de aula a outros docentes pode parecer um gesto simples. Contudo, para quem ensina, é também um exercício de exposição, reflexão e crescimento. Foi esse o desafio lançado pela iniciativa “De Par em Par”.
Eva Oliveira e Marta Coelho, Docentes da Universidade Católica Portuguesa (UCP), aceitaram participar e a experiência acabou por ir além da observação de aulas.
Curiosidade, partilha e vontade de melhorar
A motivação de ambas converge num ponto essencial: aprender com os outros.
Para Marta Coelho, a decisão foi movida pela curiosidade e pelo desejo de melhoria contínua. “Para aprender, temos de estar dispostos a mostrar e a vivenciar”, afirma, reconhecendo que nem sempre conseguimos ter uma perceção clara do que fazemos bem ou menos bem.
Eva Oliveira partilha da mesma visão, mas acrescenta uma nuance importante: a necessidade de criar rede. Para si, o contacto com colegas de outras áreas e instituições permite recolher ideias simples, mas transformadoras. “Às vezes são coisas que nunca nos passaram pela cabeça”, sublinha. O objetivo não é apenas observar, é discutir práticas e integrar sugestões concretas.
Entre exposição e metodologias ativas
Se houve um tema que marcou ambas as experiências, foi o equilíbrio entre transmissão de conteúdo e envolvimento dos estudantes.
Ao observar aulas, Marta deparou-se com dois modelos distintos de aula teórica. Numa delas, a docente limitou a exposição a 10 ou 15 minutos e dividiu depois a turma, cerca de 40 alunos, em grupos para discutir problemas. O resultado? Maior envolvimento e participação.
Noutra situação, a abordagem foi mais expositiva e prolongada. Após 30 minutos, a atenção dos alunos já começava a dissipar-se, especialmente numa aula depois do almoço. Ainda assim, havia um elemento diferenciador: a gravação de um podcast por aula, disponibilizado como reforço.
A ideia do podcast também chamou a atenção de Eva. Observando um colega que estruturava meticulosamente os conteúdos e gravava episódios de apoio, percebeu o conforto que isso pode dar aos alunos. “Eles gostam porque podem ouvir em qualquer lugar”, nota.
Mas a reflexão foi além da ferramenta. Ambas questionaram: e se os estudantes ouvissem o podcast antes da aula? E se o tempo presencial fosse dedicado sobretudo à discussão e aplicação?
Para Eva, esta tensão é transversal ao Ensino Superior: “Não há milagres. Se damos mais conteúdo, há menos dinâmica, se apostamos mais em metodologias ativas, a sistematização pode diminuir.” O desafio está em encontrar o equilíbrio.
O valor do olhar externo
Curiosamente, as duas docentes da UCP destacam que o facto de o grupo integrar colegas de outras instituições foi uma mais-valia.
Eva confessa que o ambiente foi surpreendentemente positivo: “Não houve ameaça, nem máscaras. Foi tudo muito natural.” Sublinha ainda que, por vezes, pode ser mais fácil partilhar vulnerabilidades pedagógicas com docentes externos, porque o foco permanece na prática e não na avaliação interna.
Marta reforça essa ideia, acrescentando que a dimensão interinstitucional trouxe algo inesperado: networking. As conversas ultrapassaram a sala de aula e tocaram em projetos e potenciais colaborações futuras. “As conversas acabam sempre por criar pontes”, afirma.
Ambas consideram que a iniciativa poderia funcionar em diferentes formatos, dentro da própria faculdade, entre faculdades da mesma universidade ou entre instituições nacionais e internacionais, cada um com propósitos distintos.
A vulnerabilidade como aprendizagem
Abrir a sala de aula implica exposição. E isso nem sempre é confortável.
Marta reconhece que, inicialmente, existe a sensação de estar a ser avaliada. “É um momento de vulnerabilidade”, admite. Ainda assim, acredita que é precisamente essa abertura que permite crescer.
Eva acrescenta outra dimensão: a importância de garantir que o processo decorre num contexto seguro, onde os docentes não se sintam julgados, mas apoiados.
Uma visita sabe a pouco
Se há ponto em que ambas são unânimes é no desejo de continuidade. Uma única visita foi considerada insuficiente.
A possibilidade de realizar pelo menos dois momentos permitiria integrar o feedback recebido e testar mudanças numa aula seguinte. “É aí que se começa a sentir o impacto real”, defendem.
Da entrevista sobressai um ponto comum: o “De Par em Par” ultrapassa a simples observação de metodologias e afirma-se como um espaço de autorreflexão e construção coletiva. Ao aceitarem colocar-se, ainda que por breves momentos, no lugar de alunas, Eva Oliveira e Marta Coelho evidenciam uma dimensão essencial da docência no Ensino Superior: ensinar implica, inevitavelmente, continuar a aprender. As suas palavras mostram que a inovação pedagógica pode nascer de um gesto simples, abrir a porta da sala de aula, acolher o olhar do outro e transformar esse encontro numa oportunidade concreta de crescimento.
